Notícias e Novidades

04 / June / 2026

A tríade profissional na Medicina Veterinária: uma reflexão necessária.

Porque definir competências é essencial?   A Medicina Veterinária contemporânea é, cada vez mais, uma prática integrada, desenvolvida em equipa. A complexidade dos cuidados, a diversidade de contextos de atuação e a crescente exigência por parte da sociedade tornam evidente que o funcionamento das estruturas veterinárias depende da articulação entre diferentes profissionais de saúde animal. Neste enquadramento, a tríade composta pelo médico veterinário, enfermeiro veterinário e auxiliar de veterinária assume um papel central na organização do trabalho e na qualidade dos serviços prestados. Apesar disso, a definição de competências entre os diferentes elementos da equipa permanece, em muitas realidades do panorama veterinário nacional, pouco clara. Esta indefinição tende a gerar sobreposição de funções, desequilíbrios na distribuição de responsabilidades e debilidades na organização profissional. Trata-se de uma situação frequentemente observada no terreno, que não resulta de intenções individuais, mas de lacunas estruturais e normativas na clarificação dos diferentes papéis profissionais.   O enfermeiro veterinário ocupa um lugar particularmente sensível neste cenário. Com formação técnico-científica específica na área das Ciências Veterinárias, este profissional é responsável pela prestação de cuidados de Enfermagem Veterinária, sob a responsabilidade e orientação do médico veterinário, bem como pela assistência a procedimentos clínicos e cirúrgicos, pela monitorização do estado do animal e pelo acompanhamento do tutor ao longo de todo o processo. O seu papel exige conhecimento técnico, capacidade de avaliação, tomada de decisão no âmbito das suas competências e uma atuação integrada com o médico veterinário e o auxiliar de veterinária no funcionamento global da equipa.   Contudo, a ausência formal de uma delimitação inequívoca das competências do enfermeiro veterinário favorece situações de sobreposição funcional, sobretudo com o auxiliar de veterinária. Na organização corrente das equipas veterinárias em Portugal, os auxiliares acabam por desempenhar tarefas que exigem formação específica em Enfermagem Veterinária, não por desvalorização da profissão, mas pela normalização de práticas decorrentes da indefinição de funções. Esta realidade levanta questões relevantes ao nível da segurança dos cuidados, da responsabilização profissional e da valorização das equipas, apontando igualmente para a necessidade de estruturar os enquadramentos funcionais, nos quais a responsabilidade última pelo ato clínico é sempre do médico veterinário.   É importante sublinhar que o auxiliar de veterinária desempenha um papel fundamental no funcionamento das estruturas veterinárias, assegurando tarefas de apoio indispensáveis à organização do trabalho e à criação de condições adequadas à prestação de cuidados. A sua valorização depende, no entanto, de uma definição clara das competências que lhe são próprias, orientadas para áreas não clínicas e compatíveis com a sua formação e responsabilidade profissional. Em Portugal, a formação de auxiliar de veterinária é assegurada através de cursos técnicos ou profissionais, de natureza não superior, que não conferem competências clínicas próprias, o que reforça a necessidade de diferenciação efetiva no seio das equipas veterinárias.   A existência de formações certificadas em Enfermagem Veterinária frequentadas por profissionais sem formação superior específica nesta área levanta questões pertinentes sobre a coerência entre formação, título profissional e exercício de competências clínicas. O modo como estas formações estão atualmente estruturadas e disponibilizadas permite essa frequência, contribuindo para uma desarticulação entre qualificação, enquadramento profissional e prática efetiva. Quando transposta para a realidade portuguesa, esta situação pode favorecer a banalização de competências especializadas e a fragilização da qualidade e segurança dos cuidados prestados. Este quadro evidencia a necessidade de uma distinção objetiva entre categorias profissionais, como condição essencial para a organização, valorização e segurança da prática veterinária. Essa indefinição manifesta-se igualmente no mercado de trabalho, onde é frequente a utilização da expressão “enfermeiro veterinário ou auxiliar de veterinária” em anúncios de recrutamento, sugerindo uma equivalência funcional que não corresponde à realidade formativa nem profissional destas categorias. Para além disso, esta equivalência funcional tende a refletir-se nas condições contratuais, incluindo a definição de funções e a valorização remuneratória, penalizando profissionais com formação e responsabilidades distintas.   Em contraste, a experiência da enfermagem em Medicina Humana oferece um exemplo relevante neste debate. A progressiva afirmação da enfermagem em Portugal enquanto profissão com competências clínicas próprias permitiu diferenciar sem ambiguidade o papel do enfermeiro de outros profissionais de saúde. Ao longo das últimas décadas, a definição clara de competências entre os diferentes profissionais revelou-se fundamental para a organização das equipas médicas, para a segurança dos cuidados prestados e para a clarificação de responsabilidades. Este processo não se traduziu na desvalorização de funções, mas antes na sua dignificação através do reconhecimento da especificidade e da complementaridade de cada papel no sistema de saúde.   Na Medicina Veterinária, um caminho semelhante pode e deve ser considerado. Definir competências não significa criar barreiras artificiais ou hierarquias rígidas, mas sim estabelecer limites que protejam os profissionais, os tutores e, sobretudo, os animais. A clarificação funcional permite que cada profissional atue dentro do seu âmbito de formação, promovendo uma prática mais segura, ética e organizada. A atual realidade portuguesa, pelo contrário, fragiliza a identidade profissional do enfermeiro veterinário, expõe os auxiliares a responsabilidades para as quais não têm habilitação formal, dificulta a responsabilização em caso de erro e contribui para a desvalorização global da Enfermagem Veterinária e para a perpetuação de modelos organizativos pouco sustentáveis.   Definir competências é, por isso, um exercício de maturidade profissional e de responsabilidade coletiva. Implica reconhecer o valor de cada elemento da equipa, respeitar os limites da formação de cada profissão e promover uma organização do trabalho que beneficie todos os intervenientes. A tríade profissional na Medicina Veterinária deve ser encarada como um sistema colaborativo, no qual a clareza de funções é a base para uma prática sólida e valorizada.   Em última análise, clarificar competências não é um fim em si mesmo, mas um meio para fortalecer a Medicina Veterinária em Portugal enquanto área científica e profissional, promovendo também uma organização mais transparente e sustentável do mercado de trabalho. Trata-se de um passo essencial para garantir cuidados de qualidade, proteger os profissionais e responder, de forma responsável, às exigências crescentes da sociedade. Reconhecida esta realidade, o verdadeiro desafio reside em saber se o setor está disposto a assumir as mudanças necessárias para lhe dar resposta.   Presidente da Direção – AEVPORT   Artigo original na Veterinária Atual, n.º 202, 42.

17 / January / 2026

1.ª edição da Revista Portuguesa de Enfermagem Veterinária (RPEV) já disponível

É com grande satisfação que partilhamos a 1.ª edição da Revista Portuguesa de Enfermagem Veterinária (RPEV) com ISSN: 3051-7923, atribuído pela Biblioteca Nacional de Portugal. Este volume reúne os resumos dos trabalhos apresentados no XV Congresso de Enfermagem, integrado no Congresso Internacional Veterinário Montenegro, realizado em outubro de 2025. Trata-se de um passo importante na afirmação científica da Enfermagem Veterinária em Portugal e de um motivo de orgulho para a AEVPORT e para a nossa comunidade profissional. Convidamos todos os Enfermeiros Veterinários, estudantes de Enfermagem Veterinária e profissionais de saúde animal, a ler aqui a 1ª edição da RPEV e a participar nas próximas edições da RPEV.

31 / December / 2025

Mensagem de final de ano

Caros colegas,   Ao chegarmos ao final de mais um ano, importa reconhecer os passos estruturantes que foram dados no fortalecimento da Enfermagem Veterinária e no percurso da AEVPORT.   O ano de 2025 ficou marcado por um crescimento associativo sem precedentes. A AEVPORT conta atualmente com 168 associados, dos quais 140 efetivos e 28 promessa, um aumento significativo face ao ano anterior, em que o total era de 98 associados. Ao longo deste ano, apenas 22 associados não procederam à renovação da sua inscrição, refletindo a estabilidade e o envolvimento da comunidade associativa.   A afirmação institucional da AEVPORT em 2025 refletiu-se, entre outros aspetos, no lançamento oficial da Revista Portuguesa de Enfermagem Veterinária (RPEV), a primeira publicação em Portugal dedicada exclusivamente à Enfermagem Veterinária, realizado no XXI Congresso Internacional Veterinário Montenegro. Este projeto constitui um marco relevante na valorização científica e profissional da Enfermagem Veterinária no contexto nacional e encontra-se aberto à participação e contributo da comunidade profissional.   A AEVPORT marcou ainda presença ativa em eventos nacionais e internacionais, reforçando o seu papel enquanto interlocutor institucional da profissão. Entre estes momentos, destaca-se o convite da Escola Superior Agrária do Instituto Politécnico de Bragança para participação nas Comemorações dos 20 anos da Licenciatura em Enfermagem Veterinária, incluindo a presença na sessão de abertura e na mesa-redonda dedicada à Regulamentação das Profissões Veterinárias, espaços de reflexão fundamentais para a valorização da profissão, o reconhecimento do papel dos Enfermeiros Veterinários e o reforço da colaboração interprofissional em prol da saúde animal e da saúde pública.   Paralelamente, encontra-se a decorrer a petição para a oficialização do Dia Nacional do Enfermeiro Veterinário, a assinalar a 9 de outubro, uma iniciativa que pretende promover o reconhecimento público, institucional e social da Enfermagem Veterinária, valorizando o contributo científico, técnico e humano destes profissionais para o bem-estar animal e a saúde pública. A petição já ultrapassou as 1400 subscrições. O objetivo de alcançar as 7500 subscrições é essencial para reforçar a legitimidade cívica da proposta e potenciar uma apreciação mais consistente pelas entidades competentes. Neste sentido, apelamos à partilha ativa da petição, enquanto gesto de participação, união e compromisso com o reconhecimento da profissão.   Em 2026, a AEVPORT assinalará 20 anos de existência, marco que será celebrado com a realização do 1.º Encontro Nacional de Enfermagem Veterinária, nos dias 21 e 22 de novembro, na Escola Superior Agrária do Instituto Politécnico de Coimbra. Sob o tema “O poder da Enfermagem Veterinária em ação: Competências, Limites e Futuro”, este encontro constituirá um espaço de encontro, reflexão e afirmação da Enfermagem Veterinária a nível nacional, aberto a toda a comunidade profissional.   Entramos no novo ano com bases mais sólidas, objetivos claros e um sentido reforçado de responsabilidade coletiva.   Um excelente Ano Novo para todos! Um forte abraço, Presidente da AEVPORT Ana Lúcia Garcia │ Ana Marques │ Ana Sêco │David Dantas │ Liliana Colaço │ Liliana Machado │ Márcia Oliveira │ Sandra Amaral │ Sara Cuco │ Sérgio Almeida  

10 / November / 2025

Nota de Posição da AEVPORT sobre a Proposta de Abertura de Novo Mestrado Integrado em Medicina Veterinária

A Associação de Enfermeiros Veterinários Portugueses (AEVPORT) acompanha com particular atenção a proposta de criação de um novo Mestrado Integrado em Medicina Veterinária na Universidade dos Açores e o parecer recentemente emitido pela Ordem dos Médicos Veterinários (OMV) a pedido da Agência de Avaliação e Acreditação do Ensino Superior (A3ES). A posição pública da OMV, que identifica falhas significativas na proposta, nomeadamente ausência de infraestruturas essenciais, insuficiência de corpo docente e indefinições estruturais, confirma preocupações que a AEVPORT considera centrais para a salvaguarda da qualidade da formação no Ensino Superior na área de Ciências Veterinárias, bem como da prestação de cuidados de saúde animal.   1. Enquadramento do Ensino Superior em Ciências Veterinárias  Atualmente, Portugal conta com oito Mestrados Integrados em Medicina Veterinária, com uma das maiores disponibilidades de vagas por habitante na Europa. No âmbito da Licenciatura em Enfermagem Veterinária, existem dez instituições de Ensino Superior que ministram o curso, o que demonstra uma expansão significativa da oferta formativa na última década, nem sempre acompanhada da necessária harmonização de qualidade pedagógica, condições de ensino clínico e definição de competências profissionais. Este cenário evidencia a existência de uma oferta formativa diversificada no país, o que torna ainda mais relevante assegurar que qualquer nova proposta cumpra plenamente os requisitos de qualidade, estrutura e sustentabilidade exigidos, reforçando a necessidade de avaliar cuidadosamente o impacto da abertura de novas ofertas formativas no equilíbrio do setor, na qualidade pedagógica e na empregabilidade futura.   2. Qualidade, retenção e valorização das equipas veterinárias Tal como a OMV sublinha, o problema não reside na inexistência de profissionais formados, mas na capacidade de reter e valorizar talento, garantindo condições laborais dignas, carreiras estruturadas e estímulos adequados para fixar profissionais, sobretudo nas regiões com maior carência. Esta dificuldade tem sido evidente no número crescente de Médicos e Enfermeiros Veterinários que optam por emigrar ou abandonar a profissão, não por falta de formação, mas pela ausência de condições que permitam a sua fixação no país. A AEVPORT partilha integralmente esta visão: a expansão indiscriminada da oferta formativa, sem condições adequadas, não só não resolve os problemas existentes, como pode fragilizar ainda mais as equipas veterinárias.   3. Abertura de novos cursos exige rigor e responsabilidade A criação de novos ciclos de estudos na área das Ciências Veterinárias exige o cumprimento rigoroso de requisitos de qualidade, recursos humanos suficientes e condições estruturais que assegurem uma formação sólida e competente. No caso em apreciação, esses requisitos não se encontram assegurados, conforme expressado pela OMV. Perante este cenário, a AEVPORT entende ser essencial que decisões desta magnitude obedeçam a critérios rigorosos e respondam às necessidades reais do setor, garantindo qualidade formativa, estabilidade das equipas veterinárias e práticas profissionais que protejam o bem-estar animal e a confiança pública.   Nuno R. Lima Presidente da Direção    Ana Lúcia Garcia │ Ana Marques │ Ana Seco │ David Dantas │ Liliana Colaço │ Liliana Machado │ Márcia Oliveira │ Sandra Amaral │ Sara Cuco │ Sérgio Almeida

31 / December / 2024

Mensagem de Final de Ano da AEVPORT

Caros colegas,   Chegamos ao final de mais um ano, um período marcado por desafios e conquistas. A Enfermagem Veterinária em Portugal tem dado passos significativos em direção a um maior reconhecimento e valorização, e isso só tem sido possível graças ao apoio de cada um de vocês.   Estamos no início da nossa jornada, mas temos trabalhado arduamente para consolidar a nossa missão e construir um futuro mais forte para a Enfermagem Veterinária. Acreditamos que o futuro da nossa profissão passa, inevitavelmente pelos estudantes, os futuros profissionais que irão dar continuidade a este trabalho. Por isso, renovamos o nosso compromisso de lutar pelo futuro da profissão e por todos aqueles que representam esse futuro.   Ao entrarmos em 2025, reforçamos a importância de trabalharmos em sinergia com outros profissionais de saúde animal e humana. Apenas com uma colaboração integrada e multidisciplinar poderemos garantir um impacto positivo no bem-estar animal e na saúde pública, consolidando a relevância do Enfermeiro Veterinário na sociedade.   Este ano foi marcado pelo início do nosso plano de formação com o Webinar "Cálculos Matemáticos para o Enfermeiro Veterinário", que trouxe uma abordagem prática e essencial para o dia a dia dos nossos profissionais. Além disso, o Journal Club da AEVPORT proporcionou momentos enriquecedores de discussão sobre artigos científicos e guidelines, fortalecendo a partilha de conhecimento junto da nossa comunidade. Participámos também em eventos nacionais e internacionais, reforçando o nosso compromisso com o desenvolvimento e reconhecimento da Enfermagem Veterinária. Para fechar o ano, atingimos um recorde de 98 sócios, reflexo da força e união da nossa profissão.   Para 2025, além do nosso plano formativo, estamos a preparar-nos para dois importantes congressos europeus de Enfermagem Veterinária que irão decorrer em Portugal, os quais iremos convidar todos os sócios a fazerem parte. Estamos também a desenvolver formações nas áreas de bem-estar e mindfulness, com o objetivo de promover um equilíbrio saudável entre vida pessoal e profissional.   Desejamos a todos um excelente final de ano, repleto de momentos de alegria, descanso e reflexão. Que 2025 traga novas oportunidades e ainda mais conquistas para a nossa profissão. Estamos certos de que iremos alcançar os nossos propósitos com a dedicação que tanto caracteriza os Enfermeiros Veterinários. Um forte abraço, Nuno R. Lima Presidente da AEVPORT   Ana Lúcia Garcia │ Ana Sêco │ David Dantas │ Diana Meira │ Liliana Colaço │ Liliana Machado │ Márcia Oliveira │ Sandra Amaral │ Sara Cuco │ Sérgio Almeida